Terça passada João Pereira Coutinho falou sobre o desaparecimento das cartas em sua coluna na Folha. Uma série de coincidências antecedeu e sucedeu esse fato.
Eu havia recebido uma carta de duas ou três páginas no final de semana. Ando folheando as cartas de Vincent Van Gogh a seu irmão Theo. No Valor Econômico de quinta publica-se a resenha de um livro de cartas de amor (ao lado da resenha de um livro do João Coutinho!!!).
Na sexta à noite, abro aleatoriamente o livro de Van Gogh e leio essa carta, de 1882:
"Quero fazer desenhos que impressionem certas pessoas. [...]
Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor.
Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente. Apesar da minha suposta grosseria, você me entende? Ou precisamente por causa dela.
O que é que sou aos olhos da maioria - uma nulidade ou um homem excêntrico ou desagradável - alguém que não tem uma situação na sociedade ou que não a terá; enfim, pouco menos que nada.
Bom, suponha que seja exatamente assim, então eu gostaria de mostrar por minha obra o que existe no coração de tal excêntrico, de tal nulidade. [...]
Ainda que frequentemente eu esteja na miséria, há contudo em mim uma harmonia e uma música calma e pura. Na mais pobre casinha, no mais sórdido cantinho, vejo quadros e desenhos. E meu espírito vai nesta direção por um impulso irresistível."
Ontem copiei esse trecho em uma carta, para enviar a uma amiga. Que me ligou pouco depois para confirmar meu endereço: está me enviando uma carta, com algum material sobre... Van Gogh.
Vida cíclica. Sincronicidade.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Armagedon
Quando tinha 12 anos considerava seriamente a hipótese de o mundo acabar até o ano 2000. Era 1984, a Guerra Fria era realidade e eu pensava, triste, que morreria antes dos 30.
Esse tempo passou, o mundo mudou e esse assunto não me ocorreu mais. Até uns dias atrás, quando li "Belas maldições", o péssimo nome em português de "Good Omens", de Neil Gaiman e Terry Pratchett.
O livro é muito engraçado, com tiradas impagáveis que apenas dois ingleses pensando juntos pode produzir. Como sempre que se trata de Mr. G., as referências também são precisas. Tive que ir à fonte, o Apocalipse de João, ler a passagem dos Cavaleiros.
Minha impressão: não tem Cavaleiros cavalgando pelos céus, não considero que "o fim está próximo", mas...
Menos pirotecnia, mesmo resultado.
Esse tempo passou, o mundo mudou e esse assunto não me ocorreu mais. Até uns dias atrás, quando li "Belas maldições", o péssimo nome em português de "Good Omens", de Neil Gaiman e Terry Pratchett.
O livro é muito engraçado, com tiradas impagáveis que apenas dois ingleses pensando juntos pode produzir. Como sempre que se trata de Mr. G., as referências também são precisas. Tive que ir à fonte, o Apocalipse de João, ler a passagem dos Cavaleiros.
Minha impressão: não tem Cavaleiros cavalgando pelos céus, não considero que "o fim está próximo", mas...
Menos pirotecnia, mesmo resultado.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
À tarde
Sexta-feira, 17h15. Daqui a pouco coloco a música da sexta (Vertigo - U2), o sinal para que o fim-de-semana comece no escritório.
Mas agora olho um lindo céu de outono, ouço as buzinas da rua tão altas aqui no alto (estou no 15º andar), toca "For your babies", uma música que me parece bem outonal.
Esse ano o outono chegou no seu tempo na minha cidade. Manhãs e tardes friazinhas, dias de céu glorioso e as noites... ah, aquelas noites de outono e inverno, escuras, me lembrando sempre San Juan de La Cruz.
Depois de algum tempo comecei a me dar conta dessas mudanças nas estações: a luz dos dias, a cor do céu...
Feliz assim.
Mas agora olho um lindo céu de outono, ouço as buzinas da rua tão altas aqui no alto (estou no 15º andar), toca "For your babies", uma música que me parece bem outonal.
Esse ano o outono chegou no seu tempo na minha cidade. Manhãs e tardes friazinhas, dias de céu glorioso e as noites... ah, aquelas noites de outono e inverno, escuras, me lembrando sempre San Juan de La Cruz.
Depois de algum tempo comecei a me dar conta dessas mudanças nas estações: a luz dos dias, a cor do céu...
Feliz assim.
Ainda ela
E aí o maravilhoso Contardo falou sobre a Susan. Dá pra ler aqui: http://contardocalligaris.blogspot.com/2009/04/i-love-susan-boyle.html
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Susan Boyle
Li sobre essa mulher no jornal, fui lá no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=j15caPf1FRk) conferir e fiquei emocionada.
OK, ela é feia. Mas, isso não é critério pra nada na minha vida: "não inflói nem diminói" no meu julgamento. OK, a voz dela é uma beleza. Mas, tem bastante gente com voz bonita no mundo.
O que me comoveu mesmo foi o "conjunto da obra": aquela mulher feia, cantando aquela específica música na frente de platéia e jurados hostis. Aquela música, que fala sobre a vida que se sobrepõe aos sonhos. E ela lá, reafirmando o seu sonho.
Não foi à toa que um dos jurados - o de sensibilidade mais acurada, na minha opinião - disse "você é um tigre, não, Susan?"
Foi essa coragem que me comoveu.
OK, ela é feia. Mas, isso não é critério pra nada na minha vida: "não inflói nem diminói" no meu julgamento. OK, a voz dela é uma beleza. Mas, tem bastante gente com voz bonita no mundo.
O que me comoveu mesmo foi o "conjunto da obra": aquela mulher feia, cantando aquela específica música na frente de platéia e jurados hostis. Aquela música, que fala sobre a vida que se sobrepõe aos sonhos. E ela lá, reafirmando o seu sonho.
Não foi à toa que um dos jurados - o de sensibilidade mais acurada, na minha opinião - disse "você é um tigre, não, Susan?"
Foi essa coragem que me comoveu.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Mais tarde...
Li a coluna do Contardo no mesmo jornal e ele comenta essa mesma novidade. Vale a pena ler.
Provavelmente amanhã já deve estar disponível em http://contardocalligaris.blogspot.com/
Provavelmente amanhã já deve estar disponível em http://contardocalligaris.blogspot.com/
Para não esquecer
A notícia está na coluna da neurocientista Suzana Herculano-Houzel na Folha Equilíbrio de hoje:
"O neurocientista Yadin Dudai, do Instituto Weiszmann, em Israel, descobriu o que muitos considerariam uma possibilidade de tratamento miraculoso: uma substância capaz de apagar memórias, mesmo as antigas e que em teoria já estariam 'consolidadas' no cérebro.
A droga chama-se ZIP e bloqueia uma enzima implicada nas mudanças celulares que possibilitam a formação de memórias. Aplique ZIP no córtex de um rato e suas memórias antigas parecem sumir instantaneamente - como um disco rígido reformatado.
Há empecilhos práticos a serem considerados, claro. Os efeitos 'removedores' da droga parecem ser vastos, e ainda não se sabe quantas memórias se perdem além daquela que foi testada. "
Foi curioso saber disso exatamente hoje, quando por volta das 08h lembrei de algumas das situações mais tristes dos meus últimos anos.
Fico pensando: que espécie de pessoa seríamos se apagássemos as lembranças tristes? Eu me lembro de uma cena em que Frankenstein (Robert de Niro) se queixa ao Dr. Viktor dizendo que tem dores, preferências e aptidões cuja origem desconhece e que isso o deixa sem história.
Eu prefiro minha história TODA.
"O neurocientista Yadin Dudai, do Instituto Weiszmann, em Israel, descobriu o que muitos considerariam uma possibilidade de tratamento miraculoso: uma substância capaz de apagar memórias, mesmo as antigas e que em teoria já estariam 'consolidadas' no cérebro.
A droga chama-se ZIP e bloqueia uma enzima implicada nas mudanças celulares que possibilitam a formação de memórias. Aplique ZIP no córtex de um rato e suas memórias antigas parecem sumir instantaneamente - como um disco rígido reformatado.
Há empecilhos práticos a serem considerados, claro. Os efeitos 'removedores' da droga parecem ser vastos, e ainda não se sabe quantas memórias se perdem além daquela que foi testada. "
Foi curioso saber disso exatamente hoje, quando por volta das 08h lembrei de algumas das situações mais tristes dos meus últimos anos.
Fico pensando: que espécie de pessoa seríamos se apagássemos as lembranças tristes? Eu me lembro de uma cena em que Frankenstein (Robert de Niro) se queixa ao Dr. Viktor dizendo que tem dores, preferências e aptidões cuja origem desconhece e que isso o deixa sem história.
Eu prefiro minha história TODA.
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